terça-feira, 31 de maio de 2011

O Palhaço do Circo Sem Futuro

Um conto inspirado na música do Cordel do Fogo Encantado, que tem o nome do post.



Admirava-os, as risadas que tiravam da maioria eram contagiantes; até os que inexplicavelmente choravam quando eles apareciam, acabavam por rir. Quando o circo chegava na cidade, Cloud já saía louco à procura dos jornais já lidos que eram jogados fora, conferindo a primeira página de cada um, procurando pelo recorte que dava desconto para as entradas. Cloud era uma criança agitada, adorava rir e fazer rir, via no sorriso alheio uma parcela da própria felicidade. Surpreendia à todos quando questionado, não dava como resposta o costumeiro "bombeiro" ou "jogador de futebol", quisera de verdade ser um artista de nariz vermelho quando crescer. Não só quisera como o fez.

Na escola, usava costumeiramente sapatos maiores que seu número, tinha o cabelo bagunçado para os lados e um sorriso estampado naturalmente no rosto. A aparência estranha podia até fazer com que, a princípio, rissem dele, e não com ele, mas bastava conhecer-lhe um pouco para que seu jeito extrovertido e carismático de ser tornasse sua estranheza um detalhe. Na sala de aula não perdia uma oportunidade em lançar uma piada em meio a explicação de um professor, e mesmo estes, sendo atrapalhados, compreendiam a intromissão com uma risada disfarçada para manter a ordem.

Seus pais pouco lhe davam importância, era fruto de uma gravidez indesejada, fora criado com a pouca compaixão do casal, a mesma que os fez voltar atrás segundos antes de decidir abandoná-lo quando ainda recém nascido.

O circo era o único da região, era erguido sob uma lona de faixas vermelhas e amarelas, enfeitado com lâmpadas incandescentes ligadas em série que vinham desde o ponto mais alto até perto do chão. Vinha à cidade quatro ou cinco vezes ao ano, chegava à fazer mais de dez apresentações em cada visita. Cloud estava em todas, quando não conseguia os recortes promocionais dos jornais, oferecia-se para trabalhar em troca de poder assistir às apresentações. Ora limpava a sujeira dos animais que o circo levava consigo, ora vendia pipocas e outras comidas oferecidas durante as apresentações. Não importava o que lhe era o encargo, desde que na hora dos palhaços pudesse estar para assistir.

Abandonou os estudos antes de completar a sétima série, viajava agora junto com o circo, era sua nova casa. Seguia fazendo os mesmos trabalhos, porém agora recebendo alguns trocados além de poder assistir à tudo. Era visto durante o dia maquilando-se, pegando emprestado o nariz vermelho, e encenando graças em meio ao picadeiro vazio. Em pouco tempo começou a participar de apresentações junto aos comediantes do circo, que notando a satisfação do público o mantiveram ali. Ao passar dos anos, Cloud, já adulto, viu falecer os amigos que antes contemplava quando criança, assumindo agora seus lugares para perpetuar as risadas que jamais podiam acabar, ou pelo menos não deveriam.

Era sem dúvida o melhor palhaço que ja passara por aquele circo. Usava maquilagens que jamais se repetiam; para cada apresentação Cloud tinha uma nova cor ou detalhe diferencial, o sorriso que pintava em si mesmo ia de orelha a orelha. Cloud em avançada idade era agora o dono do circo, mas ao contrário do que se imagina não tornou-se aquele apresentador que usa uma cartola, manteve seu ofício, o mais clássico e primordial do meio circense.

Nem tão primordial assim, notou com o tempo que o interesse pelo que se passava por debaixo da lona vermelha e amarela tornou-se outro. As pessoas agora se interessavam mais pelos domadores de leões, atiradores de facas e motoqueiros do globo da morte. As crianças, que outrora se divertiam com suas graças, agora ficavam sem piscar diante dos números que incitavam perigo ou forma de violência, e aproveitavam o desinteresse pela presença do palhaço para correrem para a fila das guloseimas. Nem mesmo havia mais aquelas que choravam quando ele aparecia, choro que ele adorava tentar converter em sorriso. Em uma de suas apresentações ofereceu uma torta à um garoto, que sem pensar duas vezes a devolveu em seu rosto, convidando os amigos pela próxima oportunidade.

Era Sábado à noite, dia de maior público, foi anunciado que após a apresentação de Cloud seria a vez do esperado número do globo da morte. As pessoas já se dirigiam às filas de pipoca e afins, as crianças já se enfadavam por ter que esperar por mais uma apresentação. Cloud entrou no picadeiro de cabeça baixa e passos lentos, e se dirigiu até o centro. O garoto que lhe havia atirado a torta no dia anterior estava ali perto, de peito colado à grade que divide a arquibancada, tentando chamar atenção. Quando Cloud levantou a cabeça, olhando para um ponto fixo no nada, o garoto deu três passos atrás, aguardou alguns segundos olhando-o com cara de espanto, e correu na direção contrária gritando.

Cloud jamais repetia a maquiagem, e não fizera exceção à essa vez. Tinha no rosto uma maquiagem horrenda, tons de preto e vermelho sobrepostos; o sorriso que antes lembrava a lua crescente que lhe ia de orelha a orelha, agora minguava em direção contrária. A maquilagem de Cloud não era sua máscara, pelo contrário, era o que deixava transparecer o que sentia. Cloud, imóvel ao centro do picadeiro, fitava cada um presente na arquibancada, até poder ter olhado todos fixamente nos olhos. Foram se retirando um a um, pais que contentavam crianças chorando, outros revoltados sendo apaziguados por funcionários do circo.

O circo chegara ao fim, jamais voltou a se apresentar, Cloud ainda é visto pelas ruas, nas mesmas temporadas e cidades que o circo visitava. Nunca é visto com maquilagem igual, mas mantêm estampada no rosto forma que antes era um sorriso. Talvez Cloud jamais deveria ter tomado tal atitude diante da situação, talvez deveriam tê-lo correspondido com um sorriso naquele momento.


Sorria também para quem te faz o contrário.


2 comentários:

  1. Hola, escribes divino!! Me gustó mucho enserio, te sigo. Haces lo mismo?Si es asi podriamos afiliar

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